Fala gente. Escrevi esse texto depois da vitória do Lula. Em paralelo, tô desenvolvendo um trabalho matemático sobre como o povo se coordena e onde tá a nossa alavancagem, entre outros temas. Busco gente pra pensar junto, discordar, construir 😎 Vamos nessa?
A vitória do Lula foi enorme. Acho que o nosso esforço coletivo tremendo finalmente mostrou quem somos. Pelo menos, mostrou a mim, como nunca antes. Achei lindo e fiquei inspirado. 10 milhões na batida do Janones. O povo em geral, dos fandoms ao axé, artistas e professores, estudantes e trabalhadores, tudo indo às ruas. Galera conversando com todo mundo, chamando amigos de 10 anos atrás. Enfrentando a big tech e o paredão de desinformação. E aqui em Salvador, ficamos com metade dos ônibus parados nas garagens e ninguém esperou líder pra agir: a gente se organizou nas redes, rachou gasolina, e quem tinha carro deu carona pra desconhecidos até a urna. Gente, que poder que temos.
As batalhas são muitas e em todas as escalas: na nossa vida, no bairro, na cidade, no estado, no país, no mundo. Não dá pra ignorar nenhuma, e não dá pra lutar todas de uma vez. Mas a guerra é uma só. Lutamos as batalhas que estão na frente, sempre em sintonia com a guerra maior. Essa guerra não é só o avanço do autoritarismo, ou de uma variante dele. O autoritarismo é só a armadura: a camada protetora de uma assimetria de poder que está ficando enorme. A guerra é trazer o equilíbrio. E assim, a ameaça do autoritarismo se desfaz.
Nossos antepassados já passaram por essa assimetria. A linguagem foi a primeira tecnologia coletiva que tivemos. Ninguém a construiu; a evolução deu pra todos. Imagina, milhões de anos de evolução se comunicando com grunhidos e gestos até que, finalmente, deu pra parar, dar um passo pra trás, olhar o todo e falar: “Pqp, que doideira é essa?!”
No instante em que ela pôde ser escrita, um grupo pequeno assumiu o controle: escribas, sacerdotes, a Bíblia trancada no latim, gente queimada por traduzir. O padrão é velho: aparece algo que é de todos, e poucos tentam segurar. O poder seduz.
E isso tá acontecendo de novo. De uns anos pra cá, temos duas novas tecnologias coletivas: as redes sociais, que nos conectam e nos ajudam a coordenar, e a IA, que sintetiza tudo que a humanidade já registrou. Toda nossa riqueza cultural e dos nossos antepassados: arte, ciência, música, matemática. O tamanho disso! Das gerações e gerações envolvidas, da acumulação e mestiçagem de ideias ao longo do tempo, no mundo todo. Toda nossa história vivida e gravada: capturada. Essas tecnologias são nossas, do povo.
Em volta delas, a armadura se fortalece: tecnologias militares e policiais, coerção, detenção, vigilância. E por dentro, o próprio poder cresce: o controle da inovação e da sabedoria, e a automação econômica. Tudo avançando a toda velocidade, e cada parte alimentando as outras. Mas essa máquina inteira é pesada e extensa. Cada passo exige mais terra, mais água, mais energia, mais minerais, mais chips. Acaba que a nuvem fica no chão, e usar o chão precisa da nossa permissão. Uma parte da nossa alavancagem é a nossa terra. 71% do povo estadunidense já não quer data center no bairro. E vários países do mundo já estão sofrendo com a máquina chegando.
Muito desse desenvolvimento já deixamos passar. Por exemplo, já sabíamos que a Meta coleta nossos dados. E muita coisa aconteceu despercebida: milhões de livros foram escaneados e logo descartados pra treinar IA, que só viemos a saber por processos na justiça, e bilhões de fotos nossas foram raspadas pela Clearview pra servir polícia e ICE. Deu em multa, que pra essa galera simplesmente faz parte do orçamento.
Quem somos diante desse enorme maquinário que só cresce e se fortalece? PESSOAL! URGENTE!! Somos os mesmos que conseguimos nos unir e dar a vitória ao Lula. Nossa coordenação é outra parte da nossa alavancagem.
Nosso sistema político e econômico deixou essas tecnologias serem construídas, e deixou elas ficarem na mão de poucos. Acabaram evoluindo muito mais rápido do que as nossas instituições conseguiram se adaptar.
Realmente, criaram coisas extraordinárias: conectaram todo mundo e sintetizaram toda a nossa sabedoria. Mas tomaram muito pra chegar lá. E agora apostam que vamos aceitar que o que está feito está feito… e que podem seguir em frente. Não sei você, mas eu não aceito. Me sinto desrespeitado porque eles nem estão pedindo: eles estão tomando, tirando e impondo. É uma afronta contra nossas soberanias pessoais, nacionais e coletivas. Tira as camadas todas de teatro e o que sobra não é nada mais do que um péssimo negócio, imposto sem o nosso consentimento.
Igual nos unimos pra votar um grande NÃO ao autoritarismo nas urnas, precisamos nos coordenar pra votar um outro enorme NÃO a esse negócio. Todo mundo que tá de saco cheio, em qualquer país, consegue dar esse NÃO. Pra gente, a batalha na frente era o voto, e foi o que nos uniu. O NÃO pode vir de qualquer lugar e precisa vir de várias formas. A ameaça tá presente no mundo inteiro. Imagina a nossa força, ainda mais unidos.
Só porque não conseguimos frear até agora, não quer dizer que não devíamos. Precisamos exigir mais justiça nos nossos tribunais e trabalhar pra fortalecê-los, e precisamos julgar os responsáveis. As consequências não podem ser apenas multas.
Agora, repare que eles ainda precisam que a gente compre o teatro deles. Dando uma razão ou outra, tentam justificar as políticas novas, as medidas de “segurança”, os pactos, o data center no seu quintal. Até interferem em eleições! Porque eleição é hora de mostrar o desejo coletivo. Tudo isso mostra que ainda precisam do nosso consentimento. O teatro deles é evidência da nossa alavancagem.
Não podemos simplesmente ignorar o teatro deles. Pra muitos, nossos salários vêm do jogo. E existem instituições e adereços, como o dinheiro, que também reforçam o teatro. Puxando o fio, descobrimos que é a violência que sustenta o negócio todo: guerra, polícia que mata, presídios indignos, execuções de prisioneiros. Então quem tem medo de perder o emprego ou medo de sofrer violência não é covarde. Mas, se puder lutar, encontre sua forma de colaborar.
Pra quem trabalha pra big tech: se ficar, e talvez deva, porque senão só vai ser substituído, então se organize e recuse em massa. Se alguém se posicionar, apoie e dê chão. Se você puder correr o risco, corra. Se muitos recusarem a seguir sem mudanças, forçam uma negociação. E se a empresa não negociar, saiam juntos, e se apoiem.
Já aprendemos que não devemos dar palco pra bobagem. E aqui isso continua verdade. Dentro do possível, damos de ombros. Quando cada um vê que o outro também deu de ombros, o teatro deles começa a se desfazer. Começa pequeno, nos nossos microcosmos, mas cresce até se tornar mais um enorme NÃO coletivo. Mas isso só funciona contra bobagem e pretensão. Na hora de enfrentar outros ataques e golpes de todas as escalas, o que nos ajuda são as instituições.
Boa parte da nossa infraestrutura e das nossas instituições foi criada justamente pra frear, ou até parar, o que está acontecendo. Estão sendo testadas como nunca. E, até agora, aqui no Brasil, seguraram. Que orgulho, gente. E por isso vários projetos modernos de direita envolvem enfraquecer as instituições, ou ver até onde podem passar do limite.
Nesse sentido, o Brasil segue como farol de esperança no mundo. A nossa Constituição de 1988. O SUS, um projeto ambicioso que, embora imperfeito, cobre de graça um país inteiro de mais de 200 milhões. A patente de remédio pra HIV que quebramos em 2007 pelo interesse público. O Pix, que deu de ombros aos bancos e às bandeiras de cartão: quem cobrava pra mexer no nosso dinheiro. A tentativa de golpe em janeiro de 2023, que resultou no julgamento e prisão do ex-presidente da época. Os comandantes do Exército e da Aeronáutica que recusaram apoiar ou ajudar esse golpe. O STF que desafiou Musk e o fez ceder, mostrando que ele precisa do nosso mercado mais do que precisamos dele.
Afinal, nossas instituições, e principalmente as pessoas dentro delas, são a terceira parte da nossa alavancagem. Precisamos protegê-las e atualizá-las, pra que consigam enfrentar uma tecnologia que avançou absurdamente mais rápido do que elas. Precisamos do povo dentro delas.
Com nossas alavancas, precisamos recuperar as redes sociais e a IA. Fazendo isso, vamos precisar ficar atentos ao maior perigo: entregar o poder a um novo grupo. Não existe grupo bom e poderoso ao mesmo tempo. O poder corrompe. O objetivo não é mudar de dono, é tornar a coisa impossível de ser segurada por qualquer um. Quem se oferecer pra segurar por nós já está do lado do poder e não do povo. Precisamos descobrir como segurar tudo isso sem dono, só com quem cuide da estrutura… e às claras.
Talvez seja apontar o aparato de vigilância no outro sentido: pra cima. Quem mexe com uma tecnologia que, nas palavras deles mesmos, pode acabar com a humanidade, aceita ser observado pelo público. O olho só virado pra cima, com limites claros. Fez negócio com quem? Foi pra qual reunião? Mudou qual linha de código? Aceitou transferência bancária de quem? E assim vai.
Nada na vida é permanente. Instituições, estruturas democráticas, nossas vidas: tudo vira rotina. E rotinas revelam brechas, então alguém sempre vai tentar dar um golpe de novo, grande ou pequeno. Tudo bem, faz parte. O objetivo não é quebrar o ciclo, é mantê-lo girando, com defesas que evoluem junto, como um sistema imunológico, garantindo um chão mais justo pro povo. Quebrar o ciclo é o que eles querem, com eles em cima. Eu aceito o ciclo. O ciclo é vida, progresso, natureza. E brasileiro sabe disso muito bem: é a ginga. Repetida, mas sempre quebrando o padrão.
Em 1988, saindo da ditadura, escrevemos juntos uma Constituição, com emenda popular e tudo. Acho que precisamos de algo parecido agora, não um papel, um pacto: o que fazemos uns pelos outros, como proteger o nosso poder, e o que não aceitamos e não entregamos. O primeiro artigo já está escrito: ninguém segura a chave. O resto a gente escreve junto. E não só nós, brasileiros: todos nós que estamos de saco cheio, o povo do mundo que quer se desacoplar desse teatro de rumo sombrio, que já tira da gente sem pedir.
Temos muito o que pensar e resolver juntos pra acertar um melhor rumo, e sempre seguir nele. Precisamos de todas as guerreiras e guerreiros que pudermos conseguir. Bora?