Eu nunca pedi a Deus para salvar o meu pai. Desde que ele partiu tenho vindo a sentir uma necessidade forte de me conectar com algo a nível espiritual. Cresci numa família católica pouco praticante, fui baptizada e fiz a primeira comunhão. Penso que desde aí não frequento a igreja de forma regular. Sempre fui curiosa e aberta a tudo que é religião mas nunca segui na prática nenhuma outra religião. Quando me sinto de algum modo “desesperada” (quase nunca) o meu instinto é pedir a Deus. Contudo durante aqueles meses e mesmo nas últimas horas não pedi em momento algum que o poupasse, talvez esteja relacionado com o facto de nunca ter-me sentido realmente desesperada, pelo menos até aquelas horas finais, onde tudo foi tão surreal e rápido, mas mesmo nessas horas não senti nunca em mim a vontade de pôr nas mãos de Deus essa responsabilidade, senti vontade de desabafar e desabafei, disse que o amava muito, que ia sentir muito a falta dele, mas não implorei para que o deixasse ficar...
Agora que penso sobre isso quase que sinto vergonha de não me ter ocorrido faze-lo. Eu estava a focada em ajudar a tomar decisões que na minha percepção o poderiam salvar.
Acredito piamente que na vida acontece o que tem que acontecer. Creio sim no livre arbítrio mas de uma forma concreta: a vida determina que vais estar numa encruzilhada, isso é o nosso destino ou karma ou como queiram chamar, mas quem decide se vamos para a esquerda ou direita somos nós e aqui entra o livre arbítrio. Talvez a minha mente seja muito concreta e por mais que doa dizer a situação dele foi consequência de muitas decisões ao longo da vida, não sou ninguém para dizer que ele devia ter tomado outras decisões, no máximo posso dizer que gostava que tivesse decidido de outra forma mas ele exerceu o seu livre arbítrio e foi feliz assim... Talvez pedir a Deus para o poupar seria quase como ir contra as suas escolhas, escolhas essas que sim tiveram consequências graves mas também o fizeram ser o ser humano único que ele foi. Ninguém escolhe conscientemente morrer mais cedo, eu sei. Mas ele foi um homem que tinha informação, mas também tinha muita sorte na vida, talvez outros momentos de sorte não deveriam ter sido interpretados como tal e talvez essas sejam as lições que ele me deu e me dá sem saber.
Sinto-me espiritualmente desconectada e com uma necessidade imensa de me conectar, sinto-me completamente sufocada num mundo onde todos respeitam o meu espaço e me dão espaço para respirar. Estarão ambos conectados? Será que a morte de alguém tão importante pode criar essa necessidade tão visceral de procurar algo mais transcendente ao ponto de me sufocar a mim própria para poder de algum modo me encontrar.
Hoje ouvi que talvez ele fosse a minha conexão com algo mais sagrado, ele fosse o meu símbolo do superior e a verdade é que eu o idolatrava, mesmo com todos os seus defeitos de comum mortal o idolatrava. Talvez precise encontrar ou reencontrar outra forma de amar, adorar, idolatrar que não dependa apenas de um ser fisico mas da minha conexão com algo maior.
Ainda não sei quando nem por onde começar. Vou acreditar que reconhecer essa necessidade é o meu começo e aos poucos vou perceber como navegar.
Perdoa pai por não ter pedido para Ele te poupar, mas pedi para Ele te acolher, te dar a paz e para te receberem em festa todos aqueles que já partiram e que tanto tu amavas e sentias falta de abraçar.