O amor é cego. Apenas 4 horas e 23 minutos antes do meu pai morrer é que eu caí em mim e percebi que o estava a perder.
Tenho pensado cada vez mais nesse facto, pela primeira vez refleti sobre o significado da expressão “o amor é cego”. Há pelo menos 48h horas o estado dele tinha-se deteriorado significativamente. Contudo há 56 horas apenas um parâmetro analítico estava fora dos valores de referência sem que o estado mental dele se alterasse, sem que o corpo dele se alterasse, sem que outros parâmetros se alterassem. Olhando para trás gostava de ter dado mais atenção a esse único parâmetro, em vez de aceitar que todo o quadro pós cirúrgico dele justificava esse resultado, afinal ele não tinha febre, não tinha leucocitose nem outra alteração. Reconheço que mesmo que tivesse dado mais atenção a esse parâmetro não mudaria o desfecho do meu pai, no máximo, pensaria que estava, de alguma forma, a apaziguar a minha consciência, sabendo que não tinha deixado escapar nada.
Nas 48h anteriores à morte dele notei outra coisa: tive que ir esvaziar o urinol apenas uma vez. Isso causou-me estranheza mas optei por lhe pedir apenas que bebesse mais água. Eu penso que nesse dia ele entrou em falência renal. Não tenho provas, não tenho autópsia, apenas estes pequenos fragmentos dos últimos momentos que vão surgindo com maior precisão.
Até à madrugada da sua morte eu acreditei piamente que o quadro dele seria tratado. Ele ficaria limitado, ficaria dependente, isso consegui prever e aceitei, abracei o tema com a certeza que estava disposta a ajudá-lo e cuidar dele com todas as minhas forças, mas eu não consegui ver mais além, não consegui ver que estávamos a chegar ao final desta estrada.
O amor é cego. Aprendi que o amor precisa ser cego para nos fazer lutar com todas as nossas forças por quem amamos, precisamos dessa cegueira para acreditar com toda alma que conseguimos ir mais além e salvar aqueles que nos são preciosos mesmo quando é humanamente impossível.