O meu pai não era uma pessoa de escrever. Foi uma pessoa que não pôde completar os estudos mas foi uma pessoa que sempre me ensinou a importância de estudar. Eu adoro escrever. É o meu escape para todo o turbilhão de ideias, emoções e conceitos que me surge ao longo da vida. Estive sem escrever mais de 20 anos. Estive sem escrever as minhas emoções, os meus pensamentos livres, troquei essa escrita por uma escrita cientifica, igualmente importante durante esses 20 anos. Acredito que as emoções são sentidas com uma intensidade apenas durante um período e com o tempo e com a rotina acabam por se perder, envoltas numa neblina, como se tivesse sido em outra vida. Acredito que colocar em palavras aquilo que sentimos, nos permite voltar a sentir, a viver de forma mais real um determinado momento. Acredito que escrever nos permite olhar para trás e cuidar, amar, e empatizar com a nossa própria história. O meu pai não era uma pessoa de escrever, ele era a pessoa do abraço apertado, do sorriso sincero, do amar fácil. Talvez ele escrevia na vida das pessoas assim. Neste momento, tenho ainda esperança de ser surpreendida por ele, mesmo não sendo ele uma pessoa de escrever quem sabe apareça uma carta perdida, um possível bilhete de ultimas palavras que o pudesse trazer pelo menos mais uma vez para perto de mim. Tenho 41 anos da sua voz comigo mas neste momento tenho medo de esquecer essa voz que tanto me acolhia. Acho que se tiver que listar um arrependimento é não ter gravado mais a sua voz... Eu fecho os olhos e sim consigo ouvir e sentir, preciso que essa memória auditiva me acompanhe sempre e que não seja como as emoções que vivemos, que ao fim de um tempo não conseguimos sentir igual porque não foram escritas. Sinto falta das tuas palavras pai.
Depois da maré WriteFreely Actor feed