Eu raramente pensava na morte. Sendo mais correta, raramente conseguia pensar na morte associada à minha realidade, pelo menos à realidade mais próxima, ao meu dia a dia. Na madrugada que percebi que o meu pai não iria sobreviver foi um choque. Um choque em como eu não percebi isso pelo menos 24h antes, eu vi o estado dele, não era normal, eu vi a falta de evolução e acima de tudo, eu vi o olhar. O olhar de quem está a morrer muda. Eu não sabia, ou optei por ignorar... A minha experiência anterior mais próxima da morte foi com animais e nos animais os olhos, os movimentos até a forma de respirar muda e não por sofrimento é uma respiração quase de despedida, que tranquiliza de alguma forma o corpo.
Nas ultimas 48 horas, a respiração dele mudou, o silencio dele aumentou, ele estava totalmente capaz e consciente e comunicativo quando estava com os amigos e família, mas comigo mudou, deixou de responder a perguntas retóricas, ou a temas que perguntamos apenas por cortesia e sabemos que a resposta não muda em nada. Ele passou a falar o que considerava realmente necessário. Olhando para trás isso assustou-me, e talvez o medo estava lá mas para mim aquele homem era invencível, eu acreditava piamente que seria apenas uma questão de tempo para ele resolver, afinal ele é a pessoa que me ajudava, orientava acalmava e dizia que se ia resolver mesmo quando eu não acreditava. Como poderia eu ver o meu porto de abrigo a desmoronar-se? como poderia acreditar que não seria uma tempestade passageira mesmo quando tudo estava fraco e abalado. Nos últimos 46 dias da sua vida a nossa relação também mudou, e mudou varias vezes nesse curto período de tempo. Ele teve a coragem de aceitar ser eu a tentar resolver algo quando antes era ele a resolver tudo, ele viu que conseguia mexer-me como nunca imaginou e dar-lhe respostas que ele precisava mesmo quando essas não eram as melhores. Ele confiou e acreditou e deixou-me conduzir da mesma forma como eu sempre acreditei e deixei ele conduzir até aos 46 dias antes. Essa mudança de relação criou uma conexão que eu nunca tinha experimentado, foi poderosa, eu sabia o quanto o amava e o quanto ele significava, mas ali eu percebi que esse amor era ainda maior e mais transcendente, nesses primeiros 15 dias eu percebi o quanto seria capaz para o ter sempre comigo. Nesses 45 dias eu acreditei piamente que iríamos resolver. Ironia do destino ou não a única coisa que tentei resolver por ele não consegui. Dou por mim a repassar cada decisão, cada detalhe, dou por mim a voltar mais atras e tentar perceber onde deveria ter intervindo antes, onde deveria ter insistido... Possivelmente não seja um comportamento muito construtivo e para ser sincera não me julgo, antes de pensar tarde ou cedo, penso que consegui criar momentos entre nós os dois únicos, que só nós sabemos, pois olhando com detalhe de alguma forma intervim bem antes dos 46 dias... Ouvi partes da vida dele que nunca imaginei, ouvi sentimentos dele que me fizeram abraça-lo, vi-o exposto e a sacrificar muito dele sem nunca se ter martirizado e a saber aproveitar o bom da vida mesmo que nem sempre tenha tido as melhores escolhas. Depois da terceira cirurgia dele, a nossa relação voltou a mudar, ele voltou da sala e nos olhamos nos olhos e conectamos de novo de uma forma que nem consigo expressar, eu senti a dor dele tão dentro de mim, e ele sabia que eu estava a senti-lo a abraça-lo, naquele momento fomos um. Não sei se alguma vez tinha sentido isso de forma tão presente como naquele momento. Esse momento durou cerca de 5 minutos mas para mim representou uma vida, um ciclo, algo transcendente que nunca tinha sentido antes. Incrível como mesmo apesar da dor, o amor sempre nos une, o amor sempre ganha. Na madrugada em que ele morreu os olhos dele voltaram a mudar. Essa foi a única vez durante esses 46 dias que chorei à frente dele, ele já não conseguia falar, a mente dele estava perdida, eu a acreditar piamente que tudo ainda se podia resolver olhei-o nos olhos com os meus inundados em medo e pedi-lhe para ser forte, naqueles segundos ele saiu do caos mental e fixou os olhos em mim. Os seus olhos falaram, despediram-se de mim naquele momento: “filha não vai dar”. Eu não ouvi. Eu nesse segundo não ouvi isso. Depois dele morrer voltei a esse momento e só ai pude ouvir o que aqueles olhos que mesmo nesse momento de dor e medo me olharam cheios de amor e de orgulho fazendo-me sentir amada. O meu pai teve uma vida maravilhosa, de fazer inveja aos maiores aventureiros que a humanidade já viu, criou relações únicas, tornou os meus sonhos e de muitas outras pessoas possíveis. Neste momento imaginar o meu mundo sem ele é assustador, eu sei que vou seguir, eu sei que vou continuar a dar o melhor de mim, mesmo sem o poder abraçar.