Quando fiz 5 anos o meu pai ofereceu-me uma bicicleta. Era a primeira vez que tinha bicicleta sem rodinhas de apoio, na época estávamos a viver em países diferentes, ele voou com uma bicicleta embrulhada para me oferecer. Eu sentia imensa falta dele, do meu ídolo, ve-lo chegar rasgou um sorriso que até hoje sinto. Lembro-me das primeiras tentativas clássicas, eu a tentar equilibrar, ele atrás a segurar o banco, eu a ficar confiante e ele a correr comigo até ao momento em que sinto como se voasse e quando olho para trás ele tinha largado e olhava-me com todo o orgulho do mundo. Nesse segundo a minha confiança tremeu, uma coisa é arriscar com ele a segurar, agora arriscar sozinha? Eu estava a conseguir mas e se deixasse de conseguir? Tenho guardado em mim esse misto de emoções, a felicidade de conseguir junto com o receio de o estar a fazer sem ele. Engraçado que tenho muitas memórias desse tempo, das emoções sentidas, das experiências e das dúvidas mas dele nunca tive dúvida. Mesmo estando longe, para mim ele estava ali, mesmo sem internet, sem telemóveis eu sabia que ele estava comigo. Talvez se perguntar à minha mãe ela vai dizer que não foi bem assim que sofri a sua ausência, mas de algum modo esse sofrimento não foi o que ficou, o que ficou foi ele a ensinar-me a andar de bicicleta, foi ele a chegar sempre com um presente que para mim parecia sempre o tesouro mais precioso, junto com o seu bigode que me enchia de cócegas a cada abraço e cada beijo. Tenho até hoje a caixinha de música que me ofereceste naquele dia de verão quando me foste visitar. Essas memórias já eram passadas ainda quando aqui estavas, mas de alguma forma parecem ainda mais distantes agora, como é possível que o conceito de tempo mude também com a tua ausência? Como um acontecimento já vivido parece que de alguma forma também foi perdido com a tua partida? Ainda tenho a tua caixinha de música e o amor que me deste junto dela... Quero dormir a ouvi-la com a esperança que de alguma forma isso me traga um pouco de nós. Desde o dia em que foste voltei a sentir a mistura de sentimentos: eu sei que consigo, mas o receio de conseguir sem a tua presença é real. É uma sensação avassaladora, que se há 37 anos atrás a conquista superou o medo de fazer sozinha hoje o cenário é diferente, talvez precise de mais tempo, de mais alento, de mais memórias para conseguir ter a coragem de vibrar com as minhas conquistas sabendo que não estas ali a segurar o banco mas que estas em mim, no meu sangue, no meu olhar e em todas as conquistas que a vida me dá.