A descentralização técnica de uma rede não significa desconcentração econômica ou democratização de sua governança. É possível ter uma arquitetura aberta, com múltiplos servidores e aplicações independentes, mas com uma infraestrutura fundamental em que as decisões estratégicas permaneçam concentradas nas mãos de uma única empresa. É sob esse prisma que vale analisar o AT Protocol.

AT Protocol Fico pesquisando essas tecnologias e fiz algo que poucos devem ter experimentado: migrar do servidor do bsky.app para outro servidor AT Protocol (myatproto.social), do pessoal da Blacksky. A experiência foi bem melhor do que no Mastodon. Simplesmente se transferem não apenas os seguidores, mas também todos os posts, contas seguidas, curtidas, interações, enfim, praticamente tudo, em fração de segundos e sem nenhum bug.

Mas, se há outras “instâncias de Bluesky”, por que ainda afirmam que é centralizado? Isso se deve basicamente a duas razões. A primeira é a existência de um diretório central de identidades da rede, associado ao método de identificação did, que, até recentemente, era operado pela própria empresa Bluesky (sua gestão está sendo transferida para uma associação independente constituída na Suíça). Esse diretório mantém os registros de identidade e permite que os usuários sejam reconhecidos pela mesma identidade ao migrarem para outros servidores, preservando suas informações e relações.

A segunda questão diz respeito aos Relays. Os servidores individuais do Bluesky (PDS) não precisam se comunicar diretamente entre si para que os dados circulem pela rede. Eles disponibilizam seus fluxos de dados, que são agregados pelos Relays, responsáveis por distribuir essas informações para o restante do ecossistema. O problema é que o Relay de cobertura integral e majoritariamente utilizado é também operado pela Bluesky. Embora existam outros Relays independentes, a concentração da infraestrutura mais importante continua nas mãos de uma única empresa.

Portanto, ainda que seja possível a descentralização dos servidores que hospedam as contas, há uma concentração de fato na infraestrutura da empresa que sustenta a rede. Para que tivéssemos uma estrutura efetivamente pública, seria necessário, entre outras coisas, que o diretório de identidades e os principais Relays fossem administrados por organizações independentes, com governança compartilhada e sem controle de uma única empresa. Do contrário, continuamos diante de uma rede cuja infraestrutura fundamental permanece sujeita aos interesses de capitalistas do Vale do Silício.

Contudo, o AT Protocol é código aberto e muito bom. Outra função de que gosto muito no AT Protocol (e que, em alguma medida, poderia ser replicada no ActivityPub) é a possibilidade de ter apenas uma conta e utilizar vários AppViews. Isso equivale, por exemplo, extrapolando um pouco, a ter a mesma conta para acessar aplicações semelhantes a um Instagram, um Twitter, um blog ou um TikTok, mudando tão somente aquilo que é visualizado e enfatizado pelo aplicativo. A mesma identidade e os mesmos dados podem ser apresentados de maneiras diferentes, conforme a proposta de cada aplicação.

Por isso, sou entusiasta de dois caminhos. Ou incorporamos algumas tecnologias e soluções do AT Protocol ao ActivityPub do Fediverso (o que eventualmente ocorre, ainda que a passos lentos), ou lutamos pela criação de uma fundação, sob a forma de um consórcio mundial, para administrar uma infraestrutura pública de comunicação digital. Essa fundação poderia assumir coletivamente o desenvolvimento do AT Protocol, fazer um fork e desenvolvê-lo ainda mais, criando redes sociais éticas, abertas, sem algoritmos tendenciosos e sem influências de governos ou interesses corporativos, com seu próprio diretório de identidades e seus próprios Relays.