Imagine uma infraestrutura digital que, além de processar dados, pudesse contribuir ativamente para a estabilidade da rede elétrica nacional. Essa é a tese central do conceito de colaboração Watt-Bit: a coordenação inteligente entre o consumo de energia dos datacenters descentralizados e as condições do sistema elétrico.

Simplificando: as cargas de processamento computacional vão até onde a energia renovável está disponível. Datacenters regionais viram “prossumidores” – reservam cargas em suas baterias para distribuir (produzir) para o sistema elétrico quando há falta e consomem quando a energia renovável é excedente ou sofre garagalos de transmissão (Zhu et al., 2026; Huang et al., 2020).

Por que essa discussão é urgente no Brasil?

O Brasil enfrenta um paradoxo energético. Embora possua uma matriz majoritariamente renovável, o país registra perdas financeiras crescentes devido ao corte de geração (curtailment) de usinas solares e eólicas. O Operador Nacional do Sistema (ONS) projeta que o curtailment , situação em que a produção de fontes renováveis é desperdiçada por falta de capacidade de absorção pela rede pode atingir 40 GW anualmente entre 2027 e 2030, impulsionado por excedentes durante períodos de alta geração solar e gargalos de transmissão (IEA, 2025; PV MAGAZINE, 2026). Essas perdas já superaram USD 370 milhões em 2025, e a tendência é de agravamento estrutural.

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O problema reside na dificuldade de integrar a crescente geração renovável à demanda. Mesmo com a expansão da transmissão, a capacidade de conexão para novos projetos já está comprometida em várias regiões por períodos superiores a quatro anos, segundo a ANEEL (AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA, 2026). A solução, portanto, não se limita a construir mais linhas, e exige repensar a própria natureza da demanda.

A Infraestrutura Federada de Dados como Solução

A proposta de uma Infraestrutura Pública Federada de Dados, ancorada na capilaridade dos Institutos Federais – com mais de 644 campi espalhados pelo território nacional (SENADO NOTÍCIAS, 2024) – oferece uma resposta concreta. Essa rede de datacenters e microdatacenters descentralizados pode atuar como uma “carga flexível”, capaz de se adaptar às condições da rede.

O conceito de colaboração Watt-Bit, já em desenvolvimento no Japão por meio de um conselho público-privado (NIPPON TELEGRAPH AND TELEPHONE CORPORATION, 2025a; MINISTÉRIO DA CIÊNCIA... 2025), mostra o caminho. Trata-se de coordenar o consumo de eletricidade (“Watt”) dos datacenters com as necessidades da rede, utilizando a flexibilidade das cargas computacionais (“Bits”). Para Zhu et al.(2026), essa coordenação pode se dar de duas formas:

1. Deslocamento Temporal (Temporal Shifting): Ajustar o processamento de cargas de trabalho computacional (workloads) para momentos de menor demanda na rede ou maior disponibilidade de energia renovável, atuando como uma forma de resposta à demanda (LI et al., 2020). 2. Deslocamento Espacial (Spatial Shifting): Migrar cargas de trabalho entre datacenters em diferentes regiões, deslocando o consumo de energia para locais com excedente de geração renovável ou menor congestionamento na transmissão (Shao; Li; Zhao, 2026). Essa “transmissão virtual” de energia pode aliviar a pressão sobre as linhas sem a necessidade de novas torres (Zhu et al., 2026).

A literatura acadêmica já demonstra que a combinação dessas técnicas pode reduzir emissões de carbono e custos operacionais em até 15% (Hankendi; Coskun, 2026).

A Prova de Conceito: Por que os Institutos Federais?

Os IFs, por sua capilaridade, são o ponto de partida ideal para uma prova de conceito. Eles já estão presentes em regiões do país onde a oferta de energia renovável é abundante, mas a demanda pode ser limitada. Ao transformar seus campi em nós de uma rede de datacenters flexíveis, o Brasil pode:

  • Absorver o Excedente Renovável: utilizar a energia que seria desperdiçada para alimentar a infraestrutura digital, melhorando a viabilidade econômica dos projetos renováveis (Huang et al., 2020).
  • Fortalecer a Soberania Digital: criar uma infraestrutura de dados pública e descentralizada, reduzindo a dependência de grandes centros urbanos e de provedores estrangeiros.
  • Impulsionar o Desenvolvimento Regional: atrair atividades ecologicamente referenciadas de processamento de dados para o interior, gerando emprego e renda.

Próximos Passos

A discussão sobre a construção da Infraestrutura Pública Federada de Dados precisa avançar, considerando:

  • Projetos-Piloto: implementar projetos em campi dos IFs para validar, em escala real, os modelos de colaboração Watt-Bit, utilizando os algoritmos de deslocamento espaço-temporal já disponíveis na literatura (Zhu et al., 2026).
  • Marcos Regulatórios: é provável a necessidade de que a ANEEL e o ONS reconheçam a flexibilidade de datacenters como um recurso para a rede, criando mecanismos de remuneração para esses serviços, integrando-os ao sistema elétrico.
  • Integração com a Nuvem Brasileira: alinhar a infraestrutura dos IFs com a estratégia de Nuvem Brasileira, garantindo que a soberania de dados seja um pilar do projeto, com vistas a construir um modelo de nuvem que contemple a diversidade do território brasileiro.

Conclusão

A convergência entre a necessidade de modernização da rede elétrica e o potencial da infraestrutura dos Institutos Federais coloca o Brasil em uma posição única para liderar um novo modelo de desenvolvimento digital sustentável.

A cada nova abordagem prática – ou ainda em fase de modelagem e validação, como é o caso da colaboração Watt-Bit – novas correlações emergem entre o imperativo da soberania tecnológica brasileira e a realidade deste trabalhador de TI da educação pública federal que, há alguns anos, se mete a imaginar uma solução – do prisma de quem atua tecnicamente no chão da escola, num câmpus de Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia.

Que o aprofundamento conceitual continue. Ou é proibido imaginar?


Revisão de literatura e revisão do texto com apoio de IA, LeapSpace (Scopus/Capes) e DeepSeek, respectivamente.


REFERÊNCIAS

ACM COMPUTING SURVEYS. Workload shifting techniques: from digital inebriation to sobriety. ACM Computing Surveys, v. 57, n. 4, 2025.

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA. ANEEL confirma gargalos de conectividade para novos projetos até 2030. Canal Solar, 2026. Disponível em: https://canalsolar.com.br/en/Brazil-has-no-room-for-new-connection-projects---ANEEL/?language_edit=1. Acesso em: 26 ago. 2026.

HUANG, P. et al. A review of data centers as prosumers in district energy systems: renewable energy integration and waste heat reuse for district heating. Applied Energy, v. 258, p. 114109, 2020.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Brazil energy curtailment. Washington, DC: International Trade Administration, 2025.

LI, Y. et al. Transforming cooling optimization for green data center via deep reinforcement learning. IEEE Transactions on Cybernetics, v. 50, n. 5, p. 2002-2013, 2020.

MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO; MINISTÉRIO DA ECONOMIA, COMÉRCIO E INDÚSTRIA. Publication of summary 1.0 of Public-Private Advisory Council on Watt-Bit Collaboration. Tóquio: MIC/METI, 2025.

NIPPON TELEGRAPH AND TELEPHONE CORPORATION. Standardization initiatives for Watt-Bit collaboration technology leveraging IOWN. Tóquio: NTT, 2025a. Press release.

NIPPON TELEGRAPH AND TELEPHONE CORPORATION. Public-private advisory council on Watt-Bit collaboration to launch. Tóquio: NTT, 2025b. Press release. Disponível em: Public-Private Advisory Council on Watt-Bit Collaboration to Launch/METI Ministry of Economy, Trade and Industry. https://www.meti.go.jp/english/press/2025/0318_001.html . Acesso em: 26 ago. 2026.

PV MAGAZINE. Brazilian grid operator expects PV, wind curtailment to reach 40 GW. pv magazine, 2026. Disponível em: https://www.pv-magazine.com/2026/07/09/brazilian-grid-operators-expects-pv-wind-courtailment-to-reach-40-gw/ . Acesso em: 26 ago. 2026.

SHAO, Wenli; LI, Liang; ZHAO, Jian. Carbon-oriented workload spatial-temporal shifting scheduling for internet data centers. Electric Power Systems Research, v. 258, p. 113090, 2026. DOI: 10.1016/j.epsr.2026.113090. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.epsr.2026.113090. Acesso em: 27 ago. 2026.

SENADO NOTÍCIAS. Com 1,6 milhão de vagas gratuitas, institutos federais são mistura de colégio com universidade. Senado Notícias, Brasília, 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2024/10/com-1-6-milhao-de-vagas-gratuitas-institutos-federais-sao-mistura-de-colegio-com-universidade . Acesso em: 26 ago. 2026.

HANKENDI, C.; COSKUN, A. K. Optimizing workload migration for carbon and cost reductions under grid constraints: new insights and a practical evaluation framework. IEEE Energy Sustainability Magazine, v. 2, n. 1, p. 46-56, fev. 2026. DOI: 10.1109/ESM.2025.3635119. Disponível em: https://doi.org/10.1109/ESM.2025.3635119. Acesso em: 27 ago. 2026.

ZHU, R. et al. Evolving from heavy power burden to grid resilience supporter: a review of the role of data centers interacting with power grid. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v. 242, p. 117298, 2026.

Tiago Juliano Ferreira Cientista da Computação Mestre em Educação Profissional e Tecnológica. Instituto Federal de Santa Catarina – Brasil.